Editorial
O meio ambiente nos tempos da crise
Em 31/10/2008
Fonte: Amazonia.org.br
A crise que se abate sobre o mercado financeiro internacional tem tirado o sono dos defensores do neoliberalismo, que se vêem claramente diante de um abismo. A sempre repudiada presença do Estado no mercado - especialmente o financeiro - foi, ironicamente, a única saída encontrada para salvar o sistema de uma reação em cadeia que o levaria a um colapso - e ainda não há plena certeza de que essa medida seja suficiente. Grandes bancos e empresas faliram ou estão sendo socorridos pelo Estado. Esse momento turbulento é ideal para uma reflexão sobre o papel que esse modelo econômico financeiro exerceu/exerce na destruição desenfreada dos recursos naturais. A queda - ou derretimento, como alguns vêm dizendo - desse sistema em escala global, abre a porta para a construção de paradigmas que levem em conta a preservação e a sustentabilidade na exploração do meio ambiente. Ao invés de seguir estimulando o crescimento das grandes indústrias, responsáveis pela enorme emissão de carbono, as lideranças governamentais de todo planeta deveriam analisar a reconstrução da economia buscando investir nessas novas tecnologias verdes, construindo um novo alicerce para essa outra economia que pode surgir. É hora de abandonar o petróleo e investir cada vez mais em energias renováveis, sejam os biocombustíveis, a eólica etc. Ironicamente, os prejuízos para o meio ambiente oriundos da crise não serão tão grandes já que a recessão mundial que se anuncia reduzirá as atividades industriais e o consumo de petróleo, diminuindo assim as emissões de gases estufa. O desmatamento também pode sofrer redução, já que os preços das commodities agrícolas cairão, os estoques aumentarão e a área plantada para a próxima safra diminuirá. Contudo, essas não são condições eternas, e quando a demanda mundial pela produção brasileira retornar, a oferta terá minguado e os preços subirão novamente, estimulando novas plantações que pressionarão a floresta por espaço. É nesse hiato causado pela crise, com menor pressão econômica sobre os recursos brasileiros, que a erradicação do desmatamento ilegal deve ser garantida. São retirados diariamente da Amazônia algo em torno de 68.500 m3 de madeira por dia. Isso é equivalente a dizer que são derrubados anualmente 25 milhões m3 de floresta. Desse total, estima-se que cerca 90% sejam retirados de maneira ilegal. Além da produção de madeira - que carrega em si todo o simbolismo da imagem de árvores sendo derrubadas - outras atividades contribuem tanto quanto para a devastação da região amazônica. Os minérios têm papel primordial na economia e na devastação local. Se considerarmos a produção de ferro, ferro-gusa, bauxita, cassiterita, manganês e ouro no ano de 2005, chegaram ao impressionante valor de 100.440.970 toneladas de matéria-prima retirada dos rincões do solo amazônico. Há ainda a produção de energia. A Amazônia vem sendo apontada como o último baluarte da energia hidrelétrica no país e obras em seus caudalosos rios vêm sendo incentivadas por programas do governo. Tal postura é apresentada à população como condição primordial para evitar um novo apagão energético no país e, por isso, critérios ambientais e técnicos vêm sendo sistematicamente desrespeitados para garantir essas obras. Com essa atitude, o país ignora as demandas, necessidades e oportunidades futuras. Segue o estímulo à energia fóssil, o tão falado petróleo do pré-sal é a menina dos olhos de um futuro cheio de dividendos e poluição. Em nenhum momento se questionou a viabilidade ambiental de um investimento desse tamanho na indústria petrolífera. O governo também não investe nos biocombustíveis de segunda geração, de origem celulósica, pois parece acreditar que o álcool será eternamente competitivo, mesmo com sua atual cadeia produtiva que agrega o uso extensivo de terra, trabalho escravo, queimadas e ineficiência empresarial. Quem sabe com o atual cenário global o governo federal entenda que precisa modificar sua forma de pensar para sair em posição privilegiada da turbulência pela qual passamos.
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